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Mago Zypheros

Serelith  Guad’sHein

Kael

Zypheros Kael


O silêncio em Grinfyn Hole Abyss nunca era vazio — ele vibrava. Como se o próprio espaço respirasse magia, como se cada ilha suspensa naquele abismo dimensional fosse um fragmento vivo de um poder antigo demais para ser compreendido por aqueles que jamais atravessaram seus portais. Entre pontes de madeira que desafiavam o infinito, quedas d’água que não obedeciam à gravidade e castelos erguidos sobre rochas flutuantes, existia uma ordem silenciosa, rígida… e quase imutável. Era ali que os magos viviam. Não na Terra Rara, mas entre ela e algo além. Um lugar onde o plano material e o plano arcano se tocavam — e onde apenas aqueles que dominavam a essência da magia podiam existir plenamente.


Entre essas ilhas, uma se destacava não pelo tamanho, nem pela grandiosidade de sua construção, mas pela energia que emanava de seu criador. Era instável… viva… inquieta. E no centro dela, envolto por mantos de um roxo profundo que pareciam absorver a própria luz ao redor, estava Zypheros Kael. Seu corpo carregava a aparência de um ancião — barba longa, densa, branca como neve antiga, cabelos igualmente claros caindo sob um chapéu arcano de ponta curva — mas aquilo era apenas uma ilusão da própria natureza de sua existência. Seus olhos, firmes e penetrantes, carregavam um brilho dourado intenso, reflexo direto de um poder que crescia rápido demais para ser ignorado. Em suas mãos, um cajado de madeira ancestral, retorcido como raízes vivas, sustentava um cristal flamejante que pulsava em tons de âmbar e fogo — não apenas uma ferramenta, mas uma extensão de sua própria essência arcana.


Zypheros tinha apenas sessenta e oito anos.


Entre os magos, isso o tornava praticamente uma criança.


Mas não uma comum.


Desde o início, sua trajetória havia desafiado tudo o que se considerava natural dentro de sua raça. Como todos os magos, ele nasceu na Terra Rara, criado entre humanos durante sua infância, aprendendo costumes, limitações e fragilidades de um mundo que não compreendia a verdadeira dimensão da magia. Esse era o ciclo. Sempre foi. Somente após atingirem maturidade suficiente, eram conduzidos até o limiar entre dimensões, onde atravessavam para Grinfyn Hole Abyss e iniciavam seu treinamento — um processo que normalmente levava um século inteiro para ser concluído.


Zypheros completou o seu em cinquenta anos.


Não apenas aprendeu.


Ele dominou.


Enquanto outros levavam décadas para estabilizar fluxos básicos de energia arcana, Zypheros já explorava fusões elementares, manipulação simultânea de luz e trevas, e construções mágicas complexas. Sua ilha não era apenas uma residência — era um experimento contínuo. Sua própria existência parecia acelerar o aprendizado, como se algo dentro dele estivesse sempre um passo à frente de seu tempo.


E isso… era exatamente o problema.


Porque os magos não eram apenas estudiosos.


Eram guardiões.


Guardavam não apenas conhecimento, mas também acesso.


Grinfyn Hole Abyss não era um refúgio aberto. Era um santuário selado, protegido pelos magos ancestrais que, após séculos — ou milênios — de existência, conquistavam o direito de abrir portais entre dimensões. Apenas eles podiam cruzar livremente entre aquele plano e a Terra Rara. Apenas eles decidiam quem entrava… e quem jamais pisaria ali.


Zypheros não concordava com isso.


Para ele, aquela dimensão não deveria ser escondida.


Não deveria ser protegida da Terra Rara.


Deveria salvá-la.


Ele havia visto o mundo de fora. Havia visto a desigualdade, as guerras, as perdas, o sofrimento causado por ignorância e limitação. E sabia — com uma convicção inabalável — que a magia de Grinfyn Hole Abyss poderia mudar tudo aquilo. Poderia curar doenças, impedir conflitos, fortalecer povos, evitar a queda de reinos inteiros. Mas os anciões recusavam. Sempre recusavam. Diziam que o equilíbrio entre os planos não poderia ser quebrado. Que abrir aquela dimensão significaria trazer consequências que nem mesmo eles poderiam controlar.


Zypheros via aquilo de outra forma.


Para ele, aquilo não era equilíbrio.


Era omissão.


E por isso… ele quebrou a regra mais sagrada de todas.


Sem ser um mago ancestral, sem possuir o domínio completo sobre os portais, ele encontrou uma brecha — um momento raro em que uma família de magos realizava o ritual de nascimento na Terra Rara. E naquele instante, escondido entre fluxos de energia, Zypheros atravessou.


Sozinho.


Sem permissão.


Sem retorno garantido.


Foi ali que encontrou alguém que mudaria tudo.


Yan Severis.


Um bruxo.


Filho de uma linhagem rival.


Se os magos dominavam luz e trevas, os bruxos caminhavam entre trevas e vazio — um domínio mais instável, mais perigoso, mais proibido. Durante séculos, ambas as raças disputavam não apenas poder, mas também reconhecimento sobre a origem das fusões elementais. Quem veio primeiro? Quem dominou antes? A resposta nunca importou de verdade. O conflito, sim.


Mas entre Zypheros e Yan… não havia conflito.


Havia compreensão.


Pensamentos iguais.


Propósitos alinhados.


Eles não se tornaram aliados.


Se tornaram irmãos.


E foi através de Yan que Zypheros fez o impossível.


Aprendeu a tocar o vazio.


Algo que nenhum mago deveria ser capaz de fazer.


Algo que nenhum mago jamais havia dominado.


E isso o tornou único.


O único mago capaz de atravessar regiões que nem mesmo seus semelhantes ousavam encarar — incluindo os territórios das Terras Profundas, onde o vazio se manifesta de forma mais pura e destrutiva.

Mas não era apenas poder que guiava seus passos.


Era propósito.


Juntos, Zypheros Kael e Yan Severis caminharam por Terra Rara não como conquistadores, mas como portadores de uma ideia perigosa: igualdade entre os povos, acesso ao conhecimento, e o fim de um ciclo de isolamento que apenas perpetuava sofrimento. Eles estiveram entre humanos, anões, elfos… e foi com os elfos do leste que deixaram uma das maiores marcas de sua existência.


Quando a Barreira Mística do Leste — aquela que impedia o avanço do vazio sobre Terra Rara — começou a falhar, ninguém soube explicar o motivo. A estrutura ancestral, sustentada por gerações de magia élfica, simplesmente… enfraqueceu. E naquele momento, quando o mundo esteve mais próximo do colapso do que jamais esteve, foram Zypheros e Yan que responderam ao chamado.


Não como salvadores.


Mas como aqueles que se recusaram a assistir.


Combinando luz, trevas e vazio, algo que jamais deveria coexistir, eles ajudaram a restaurar a barreira — não apenas estabilizando-a, mas fortalecendo-a além do que era antes. Foi a primeira vez que elfos, magos e bruxos trabalharam juntos em algo daquela magnitude.


E talvez… tenha sido a última vez que o mundo esteve tão perto de um equilíbrio real.


Mas ainda existem perguntas. Sussurros. Rumores.


Dizem que a lendária arma Insiguinux… pode estar escondida em alguma parte de Grinfyn Hole Abyss. Esquecida. Selada. Esperando.


Zypheros nunca confirmou. Mas também nunca negou. Porque no fundo… ele sabe.


Se aquela arma realmente existir naquele plano…


Então o destino de Terra Rara não está apenas em risco.


Ele está prestes a mudar. E Zypheros Kael — jovem demais para ser aceito, poderoso demais para ser ignorado — pode ser o único capaz de decidir para que lado essa mudança irá.

Áudio Narrativo

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